Carta de Lyon

Das Minas Gerais para Lyon e de Lyon para todos que gostam de compartilhar experiências. Navegar é preciso, viver não é preciso! Vinhos, gastronomia, culinária, costumes, hábitos, paisagens. Liberté, Égalité. Fraternité. Libertas quae sera tamen. Uma mistura a rechear estas Cartas de Lyon.

24.12.04

Perouge - 28/11

Saímos domingo cedo programando pegar, tranqüilamente, o ônibus que nos levaria pra Perouge. Mas, a emoção do nosso passeio começou já aí, porque o metrô começou a demorar e o tempo foi ficando apertado. Conclusão, chegamos todos correndo, desembestados e quase ficamos pra trás. É duro correr no frio, o nariz dói como se a gente tomasse água gelada. Sentamos ofegantes e partimos.
A beleza do passeio começa mesmo da estrada. A paisagem estava linda, era pleno outono e as cores chegam a parecer irreais. As folhas, as vezes em uma mesma árvore, pode ir do amarelo ouro ao vermelho vivo. É lindo!
Passamos também por pequeninas e charmosas cidades que davam vontade de parar o ônibus e descer.
Descemos em um trevo, antes da entrada de uma outra charmosa cidade, chamada Meximieux. Fomos avisados que teríamos uma pequena caminhada pela frente, subindo uma colina.
Perouge é uma pequena vila medieval, construída como as fortalezas, no alto dos morros, toda em pedra, com apenas duas entradas. Quando a avistamos no alto do morro o encanto já é geral, pois ela aparece imponente, misteriosa. Lá do alto, na primeira entrada, uma belíssima vista de um grande vale.
Mas o que se vê lá dentro é puro encantamento. Pequena, toda preservada, vamos seguindo fascinados pelas ruas circulares. Essas vilas eram construídas na forma de um caracol, conduzindo para a área principal, onde vai estar a praça central. E que praça! O dia estava frio, com neblina e vento, o que contribuía para aumentar o charme do lugar e sentimento de viagem no tempo. As construções, as janelas e portas, as torres, a igreja, nos transportam pra climas e histórias da idade media.
De casa em casa, de vista em vista, cada hora era um que exclamava, em sua própria língua, a surpresa do encantamento.
Almoçamos maravilhosamente bem um filé de vitelo com cogumelos. De sobremesa, um prato típico do lugar, que parece um crepe doce (me esqueci o nome) muito gostoso. Mas o mais legal, é que depois do almoço as janelas das casas vão se abrindo, com os moradores vendendo os pedaços desse crepe. Janelas muito antigas, com floreiras, expondo os doces e sendo vendidos por simpáticas senhoras sorridentes. Fica ainda mais gostoso.
Descemos de volta e fomos caminhar por um lindo lago de onde se vê ao alto a fortaleza.
De volta à cidade onde pegaríamos o ônibus, passeamos, redescobrindo as árvores e a profusão de cores colorindo a vista. Enquanto esperávamos, nos esquentamos em um pequeno café, tomando chocolate quente. Belo passeio, alma aquecida pelo calor do chocolate, dos colegas compartilhando as admirações e pela vista de novas e surpreendentes belezas.

27.11.04

A festa do Beaujolais nouveau - 17/11/04

Sempre na terceira quinta-feira do mês de novembro da cada ano, na cidade de Beaujeu, é feito o lançamento mundial desse famoso vinho. Para os apreciadores, sabemos que não é lá grandes coisas, pelo contrário, é até bem sem-graça. Mas como estava aqui, bem pertinho – a cidade fica a menos de 1 hora de Lyon – aproveitando a excursão promovida pela Aliança Francesa, não podia deixar de ir. Se não gosto muito do vinho, gosto muito de festa.
Saímos à noite, porque o lançamento é feito exatamente à meia-noite da virada de quarta para quinta-feira. Fui junto com mais 4 colegas e então, a festa prometia!
Chegamos a uma pequena, mas charmosa cidade, que de tão pequena, impressionou-me ser capaz de um evento que tem repercussão mundial e que é o centro de uma região produtora de vinhos que os manda para os mais variados lugares do mundo. O que um bom marketing não é capaz de fazer, não é?
O frio era de congelar, mas todos tínhamos sido avisados para irmos com roupas bem apropriadas. A festa começa com uma linda caminhada iluminada com tochas, que conduzem uma grande multidão para uma linda praça, próxima a uma igreja medieval, onde estava armado um grande palco. Muitas luzes coloridas iluminavam o palco e os monumentos próximos. Pequenas bandas tocavam música e o locutor ia criando a expectativa, até que, meia-noite, após contagem regressiva o vinho começa a jorrar de um grande globo terrestre suspenso e logo em seguida um lindo espetáculo de fogos ilumina o céu e as montanhas próximas.
Daí pra frente, é degustar... Logo descobri uma barraca que ao invés de Beaujolais nouveau servia Beaujolais Villages, um tanto quanto melhor e daquele momento pra frente só bebemos dele. Atenção amigos brasileiros, o preço cotado do Beaujolais nouveau aqui é de 3.20 euros. Lembrem-se disso quando virem o preço abusivo por aí.
Depois nos dirigimos para o grande baile. Uma enorme tenda abrigava centenas de pessoas e vários conjuntos se revezavam. Nunca vi tanta fartura de belos homens reunida. Muito bom! Mas cá pra nós, baile francês lembra um pouco baile de terceira idade, com aquelas músicas, meio valsinhas do interior. Agradável e interessante no começo, mas depois dá uma saudade danada de um bom forró e um bom samba.
Mas aproveitamos bem até quase cinco horas da manhã. Mais um belo passeio, mais uma boa farra. No dia seguinte foi um custo dar conta de aula de duas da tarde às oito da noite. Mas tudo bem, recuperei depois.

24.11.04

A Côte D'Azur

De 12/11 à 15/11

Minha viagem começa pela experiência de andar de TGV pela primeira vez. Claro que fiquei tensa, e o medo de perder o trem? Mas como boa mineira, cheguei cedo, me informei de tudo, conferi várias vezes o bilhete, perguntei a mesma coisa outras tantas. Enfim, estava na plataforma certa e entrei no vagão correto, sem nenhum imprevisto.
O trem, uma beleza, conforto total. Poltronas acolchoadas, espaçosas, de dar inveja aos nossos ônibus e aos aviões.
Quando ele começou a andar, meu coração acelerou junto. Meu Deus! O olhar tem que ser posto ao longe, pra conseguir se ver algo. Quando ele cruza com outro TGV, além do susto do barulho, e uma forte pressão no ouvido, o que se vê, por segundos, é apenas um massa cinzenta, disforme, passando ao seu lado. Mas, com o tempo, fui apreciando a paisagem. As cores do outono são mesmo maravilhosas! Todas as tonalidades do amarelo, laranja, vermelho, verde, tudo em um belo contraste com o céu azul.
Esse país tem mesmo coisas lindas, pois de repente, do meio do nada, aparece uma torre medieval, um castelo. Incrível.
Passei por Avignon e de longe vi construções medievais me deixando o desejo de programar uma ida especial até lá. Depois Marseille, já com o mar deixando o seu contraste também azul. Está aí, pelo que vi, outra cidade que quero conhecer. Fez-me lembrar do que costumamos associar às cidades italianas; casas muito próximas, muitas e muitas roupas dependuradas, secando nas janelas.
Passei por Toulon, e aí o trem já anda um bom trecho a beira mar em um contorno cheio de penhascos.
Finalmente cheguei a St. Raphael. Lá estava o meu querido casal francês (pra quem não sabe foi o que me hospedou quando estive em Paris) , carinhosamente me esperando.
É uma linda cidade, de construções clássicas, muitas delas suntuosas como o Cassino e os hotéis. Claramente se vê que se está em um lugar de ricos. A urbanização da praia, os jardins, as praças, os restaurantes, tudo de encantar a alma!
A cidade é cheia de colinas e a casa deles fica em uma delas, não de frente para o mar, mas de onde se tem uma vista enorme das grandes montanhas da região. Ah! Meu Belo Horizonte!!! Que bom ver montanhas e matar um pouquinho da saudade!
A casa, confortabilíssima, eu alojada na suíte da casa. Suíte sem privada, é claro, porque o francês separa seu digníssimo recinto para as meditações intestinais, do lugar de banho.
Uma bela e aquecedora lareira acesa todo o tempo. As refeições me rememorando Paris, quando me hospedei com eles; aquela maravilha de sabores, com todo o ritual. Aperitivos (geralmente belos vinhos brancos, geralmente moscato, água Perrier e suco de tomate) acompanhados de alguns embutidos e a azeitona mais maravilhosa que comi. As regiões de Provence e Cote D’Azur são grandes produtores de azeitonas e azeites deliciosos. Depois dos aperitivos, passávamos à mesa. Aí, se abre o vinho tinto. Começamos pelas entradas, depois o prato principal com a carne e algum acompanhamento, depois os queijos (sempre variados para que eu pudesse experimentá-los) e por fim a sobremesa e as frutas (o nome da mixirica aqui é super simpático: clementine.). Ai, aí aí, bom demais! Em relação às comidas vale registrar algumas delicadezas. Na noite do primeiro dia, uma bela carne (aqui os cortes são diferentes e não consigo identificar) toda amarrada em ervas, preparada caprichosa e demoradamente em uma grelha na lareira. Outro cuidado, a sobremesa chamada Tropezienne (originária de St. Tropez, por isso o nome). Tem uma parte de bolo, recheada fartamente com um creme que me fez lembrar dos antigos sorvetes de creme de Belo Horizonte, principalmente do Sósó Sorvetes. Outra sobremesa maravilhosa: torta de maçã fervendo, com sorvete. Por fim, outra delicadeza: compraram especialmente para eu experimentar, o verdadeiro cuscus marroquino. Aí vi francês comendo em prato fundo, tudo misturado, lembrando nossos pratos e jeito de comer.
Eles, com toda paciência do mundo, me ensinaram e corrigiram meu francês muitas vezes, mas mesmo assim, conseguimos ter conversas maravilhosas, como as memórias da guerra de Monsieur Régis, bem menino, escondido no armário e as lembranças que os dois tem das conseqüências da guerra em suas famílias e em suas histórias. Essas memórias da guerra são ainda muito presentes e St. Raphael foi um dos lugares de desembarque dos americanos.
Tudo que me levaram pra conhecer foi de puro encanto. Quando me vejo conhecendo esses lugares, com a plena consciência de que eu estou ali, vendo aquelas coisas, tenho mesmo a sensação física de que minha alma cresce! Me dá uma alegria danada, e algumas vezes me emociono mesmo.
Os cantos e as pracinhas, sempre com um restaurante charmoso, tem próximo uma oliveira, e debaixo delas as mesinhas ao sol. Toda manhã, depois de passearmos a pé, sentávamos em um desses restaurantes pra tomarmos um Kir. Aí meu Deus! Não é demais! Como posso me ver em uma situação dessas e não ter a sensação de criança encantada?
A cor do Mediterrâneo é linda, mas a praia, nem tanto, porque a orla e a areia são incomparáveis com as nossas. Aprendi que o mediterrâneo não tem maré, e por isso, não tem ondas, só pequeníssimas marolas. O céu inteiramente azul, o sol a pino, mas todos de blusa pesada, o frio só nos deixava apreciar de longe.
Fomos a Agay e me encantei com os penhascos, principalmente com as Roches Roses. São realmente rosadas quando o sol bate. Para respeitar a cor das rochas, pra não fazer contraste com elas, todas as casas e telhados da região são da cor de terracota. Aprendi que o que chamamos de construções em estilo mediterrâneo, tem a ver com as formas e cores para não concorrer com as rochas. Bonito demais!!!
Fomos a Fréjus. Começa do outro lado da ponte de St. Raphael, mas mais ao longe esconde coisas maravilhosas. Na verdade é um sítio histórico com muitas ruínas romanas, aqueduto, anfiteatros para lutas de gladiadores. Tem também toda uma parte medieval, com igreja e monastério do séc II. Quando entramos, a igreja estava quase na penumbra e uma pessoa tocava um enorme órgão de tubos. Imaginem só!
Na cidade, as vielas tortuosas, com construções coloridas e de paredes tortas, são deliciosas pra se caminhar.
Fomos também à St. Tropez e passamos por várias e charmosas pequenas cidades. Mas St. Tropez é de encher os olhos. Começa pelo seu porto, com aqueles iates tão grandes e suntuosos que a gente nem acredita que alguém possa ser dono daquilo. Do alto do muro do porto, tive a mais bela vista, até o momento, dessa viagem: meus olhos se perdiam no mar, do outro lado, bem ao longe o contorno de St. Raphael, muitas e muitas montanhas de vegetação fechada, fazendo contraste de verde e, bem distante ao fundo, imponente, os Alpes e seu telhado branco de neve!!! Quando vi pela primeira vez, me surpreendi como uma menina e me emocionei.
Depois disso, um passeio a pé pelas vielas de St. Tropez. Linda! Cheia de encantos e ar de mistério. Algumas construções são medievais, outras renascentistas e é, de todos os conjuntos, o mais lindo! Há qualquer coisa de Búzios nessas praias.
Vocês podem imaginar como voltei... estava aquecida pelas belezas que vi, mas principalmente pelo acolhimento carinhoso de uma família tão generosa comigo.
Meu TGV, na volta, a mais exemplar tecnologia francesa, deu pane na estação de Marseille, o que fez todo mundo ter que descer e gelar de frio na plataforma e nos atrasar 45 minutos. Mas, como o serviço é francês, por conta desse atraso, ganhei um desconto do mesmo preço da passagem, para qualquer lugar que quiser ir. Bom demais do conta!!!

10.11.04

Meu encontro com Baco

07/11/2004


Vou começar meu encontro com Baco pelos passeios da semana passada. Aconteceu, aqui em Lyon, em um local bem próximo de onde estou – Halle Tony Garnier – o salão dos produtores independentes de vinho de toda a França. Trata-se de um grande local de exposição, onde estavam reunidos mais de 500 produtores das mais variadas regiões. Pelo módico preço de 3 euros, ganhava-se a taça de degustação e o direito de degustar o que bem quisesse ou conseguisse. Vocês podem imaginar como gostei! Tanto, que fui por dois dias seguidos. Provei os rose da Provence, os brancos da Alsace, as legítimas e maravilhosas champagnes de Champagne, os fantásticos Sauternes e seu maravilhoso sabor levemente defumado, e os excelentes, já tradicionais, Bourdeaux e Bourgogne. Me deliciei! Essa feira é uma completa perdição! Comprei alguns, já deixando os especiais guardados para aqueles que vem me visitar, e lembrei-me muito dos meus amigos da CONVIVA (Confraria dos Amigos do Vinho do Vale do Arrudas). Ah, a gente junto aqui!
Depois, nesse final de semana, uma outra maravilha; a exposição “Le vin: Nectar des Dieux, Genie des Hommes”, no museu Gallo-Romano de Fourviere. Realmente me emocionei quando entrei na exposição, encantada com a sua beleza e, de novo, com a lembrança dos amigos. A exposição reúne objetos de vários museus, contando a história do vinho: sua produção, seus utensílios, seus mitos, suas cerimônias, os ritos e sacrifícios que o envolviam. Coisas de 2000 anos antes de Cristo, suas histórias pelo Egito, Grécia, Roma, até chegar à Gália (região, é claro, de Lyon).
Lá estava Dionísio, lá estava Baco e seu cortejo com as Bacantes, ensinando sobre o prazer, a alegria, sobre os sentidos, e também sobre a temperança e a medida. Conheci as crateras, locais onde se misturavam a água e o vinho. Uma linda, enorme, em bronze, que comportava até 1.200 litros de vinho, enfeitada com altos relevos do cortejo das bacantes, e tendo como alça, duas figuras femininas, em posição nada conservadora, simbolizando a fertilidade, e a dádiva da terra.
Conheci os locais onde, de modo ritual, o que seria o primeiro gole, era lançado a terra, em sinal de fertilização, mas também como uma forma de umedecer os subterrâneos e ajudar a ascensão dos mortos e dos deuses ao Olimpo. (origem provável do nosso “gole pro santo”).
Aprendi que Symposium, eram grandes banquetes, onde as pessoas se reuniam para celebrar algo.
Cada objeto, mais bonito e mais significativo que o outro, contando a história do sentido transcendente do vinho, que em sua associação sagrada ao sangue, era usado em rituais de sacrifício, representando ao mesmo tempo vida e morte. Atravessa os tempos, e chega até nós no sacramento cristão da eucaristia.
O clima da exposição é fantástico! Dezenas de âmphoras, algumas datadas do séc. 3 antes de Cristo, já com a marca do produtor e do comprador.
Claro que cheguei em casa, estou escrevendo e tomando uma taça de um ótimo Bourdeaux.
Salut!
Um brinde aos gostos e à vida!

24.10.04

16/10/04 – O frio dá seus sinais

Estou percebendo cada vez mais o que é a força e o calor de um sol tropical. Aqui, se as nuvens chegam e cobrem o sol, o frio vem em seguida, rápido e cortante. Foi nesse frio intenso (com certeza algo já beirando os dez graus) que tive a alegria enorme de receber minha orientadora aqui e pude então passear conversando em português, compartilhando, com as mesmas expressões, as belezas que víamos.
Começamos pelo almoço porque já estava mais tarde, e aqui muitos restaurantes fecham em certo horário. Escolhemos um outro prato típico daqui; uma espécie de dobradinha à milanesa (“les tripés” são feitas aqui das mais variadas formas). Não foi lá nenhuma maravilha e o melhor sabor vinha dos acompanhamentos e do vinho bem honesto, um Côte du Rhône.
Passeamos depois por Fourviére, por Vieux Lyon, mas dessa vez descobri, encantada, novas coisas. Já havia entrado na catedral de St. Jean, de construção medieval, gótica, mas não tinha reparado bem em seus vitrais. Eles são maravilhosos, principalmente as rosáceas, com cores e desenhos fantásticos. Soube inclusive que a tecnologia e fórmulas empregadas para se tratar o vidro, produzindo algumas de suas cores, se perderam no tempo, e não se consegue mais reproduzí-las. Dentro da catedral, tem também um relógio astronômico sobre o qual se tem escritos que datam de 1200, ou seja, ele é anterior a isso. Fico impressionada com a capacidade do homem de fazer engenhocas como aquela em épocas tão distantes.
De lá caminhamos muito, mesmo debaixo de chuva fina, conhecendo novos traboules, que cada vez acho mais simpáticos e mais misteriosos. Passamos por um velho atelier de seda, que até hoje preserva a tecnologia de trançar a seda com fios finíssimos de ouro, como alguns reis usavam. Pude ver o fio da seda colocado no tear, e de tão fino, ele às vezes some da nossa vista. Aí penso no trabalho para colocar centenas de fios na trama necessária para a trançagem.
Depois de mais passeios a pé, já escurecendo, o frio exigia um chocolate quente e aí nessas horas, o calor do aquecimento é mesmo uma benção. Já estou aprendendo a tirar e colocar casaco toda hora.
Novas caminhadas e então, na linda e movimentada Rue Mercière, que mesmo com o frio e chuva estava cheia, escolhemos um restaurante para apenas comermos uma salada. Mas, logo na hora que entramos, vimos que tínhamos ido parar em um lugar maravilhoso! Ambiente lindo e agradabilíssimo, chic, aconchegante, muito bem decorado. Chama-se Le Bouchon aux Vins e logo pela carta de vinhos percebo ser um lugar de muitas opções. Ao ir ao banheiro (toilette é tão mais chic! Parece até outro lugar) descubro uma maravilhosa adega. Na volta escolhemos então um vinho dos deuses: Croze Hermitage (pedimos a taça, pra não exagerarmos no gasto). Vinho encorpado, aveludado, de cor bem fechada e de sabor... uma delícia! Pedimos a salada Lyonnaise, simples, mas deliciosa: folhas, pedacinhos de bacon e crutton, e um ovo frito molinho por cima de tudo. O incrível é como eles conseguem deixar o ovo como uma bolinha redonda toda branca. A comida aqui é muito estética e eu adoro isso!
Quando pagamos a conta, que foi honestíssima, aí vejo que estávamos mesmo em um restaurante muito chic. Recebi um cartão de fidelidade (tipo nosso caderninho do Festival de Buteco) e, se for a sete restaurantes dos selecionados como Bistrots de Cuisiniers (estávamos em um deles), ganho um desconto de 105 euros (pasmem, desconto!!!!) em um restaurante chamado Léon de Lyon, em um jantar para duas pessoas. Loucura total!
Fomos embora aquecidas pelos sabores e pelas ótimas conversas.

17/10/04 – As belas vistas de Croix Rousse
Hoje a chuva deu uma trégua e isso ajudou muito no passeio. Existem cinco roteiros possíveis para se fazer conhecendo as vielas dessa linda colina. Escolhemos o roteiro Rouge e da Place des Terreaux, começamos a subir. É um caminho tortuoso, onde se atravessam pequenas vielas e sobe-se muitas escadarias que sempre abrem belas vistas, belos recantos de encontros de construções coloridas. Há três pontos altos desse passeio: o primeiro é o Amphi-theâtre des Trois Gaulles – são ruínas romanas datadas de 48 d.c.- trata-se de uma arena onde foram sacrificados cristãos e onde haviam lutas de gladiadores. Incrível ver vestígios desses lugares, daquelas coisas que só conhecemos pelos livros e pelos filmes. Outro lugar maravilhoso é uma vista, já na parte mais alta, de onde se descortina uma boa parte da cidade cortada pelo Saône. À direita, se avista a colina de Fourviére e a imponência de sua igreja, abaixo a força gótica da catedral de St Jean e os lindos telhados formando planos diferentes. E o terceiro ponto, são os ateliêrs de esculturas, as casas de chá, ótimas pra se apreciar e aproveitar pra se descansar um pouco.
Chegamos ao Boulevard de Croix-Rousse, lindo, movimentado, todo arborizado, com as folhas das árvores já de cores muito variadas. Depois de andarmos um pouco pelo bairro, fomos comer alguma coisa e hoje optamos por algo mais simples, um sanduíche (que aqui na verdade nunca é uma coisa muito simples; o presunto é tipo Parma e o queijo lembra o Roquefort só que feito de leite de vaca, uma combinação ótima) e tomamos um chopp mais leve e mais barato que se chama Blanche.
Resolvemos descer de ônibus pra vermos um pouco da cidade, mas quando ele começou a descer começamos a reparar nas vistas, nos telhados, na vegetação mais fechada e não tivemos dúvida, descemos do ônibus pra apreciarmos melhor a pé. Aí descobrimos um parque encantador de onde se tem a vista da parte detrás das colinas. As construções à margem do Saône são lindas, uma colada nas outras, com sacadas floridas e é uma beleza se ver o rio por ali. Realmente, em cada canto da cidade, uma nova janela se abre, pra novos olhares...

Mas o dia, ou melhor, a noite, ainda ia durar. Havíamos combinado, juntamente com um outro casal de Belo Horizonte que também está aqui em Lyon, de tomarmos um vinho e sermos iniciados em uma bela amostra dos queijos franceses. Viemos para a minha casa. Tenho tomado belos vinhos aqui, mas os dessa noite foram especiais: um Bordeaux superiére (premiado, medalha de prata em 2003) que se chama Châteaux Cazeau, 2001, e o fantástico Côte Rôtie, 1998, que é considerado o melhor vinho de toda a região Beaujolais, e ele realmente vale a fama. Quanto aos queijos, uma outra maravilha; além do Roquefort e do Chèvre, que são bem conhecidos, experimentei quatro maravilhas: o Reblochon e o Tomme, mais macios e mais leves, e o Comté e o seu primo chic o Boeafort (que lembra um pouco o Grana Padano) mais consistentes e de sabor mais proeminente, fora os patês du campagne, para acompanhar. Só de escrever aqui estou com água na boca. E o mais delicioso de tudo, um dos presentes, além de professor é músico, e nossas conversas foram entremeadas por um belo violão tocando bossa nova. Pura maravilha, ô trem bão sô! Bom demais da conta!!!!!!
22/10/04 – Encontro de pessoas e línguas
Hoje, o dia de passeio começou tarde, porque a opção era ir ao cinema. Aqui está acontecendo o festival Truffaut e então fomos ao Instituto Lumière (os irmãos Lumière são daqui de Lyon). É uma bela construção em uma linda praça e, além de um museu, um parque, um muro onde se vê inúmeras placas celebrando a visita dos diretores mais famosos do mundo, tem uma sala de exibição como eu nunca vi igual. Assisti o Homem que amava as mulheres, que já tinha até visto no Brasil, mas foi uma ótima oportunidade de revê-lo e de treinar meu francês.
De lá, mais tarde, motivo de uma grande alegria pra mim, fui à primeira festa de aniversário aqui, de uma colega espanhola, na própria cafeteria da Ecole. Uma delícia, era praticamente uma festa de estrangeiros de inúmeras nacionalidades, pra vocês terem uma idéia, o parabéns foi cantado em francês, espanhol, italiano, alemão, português, russo, romeno e inglês, uma beleza esse encontro de línguas e essa convivência que se vai construindo devagar!
Claro que levei meus Cds de samba e pude, com os outros brasileiros e vários adeptos, dançar um pouco da nossa deliciosa música, matando um pouquinho da saudade!

10.10.04

Os Mistérios

A importância do passeio de hoje não foi conhecer lugares novos, mas a possibilidade da convivência, que aqui é o bem mais precioso que a gente tem pra cuidar. Por isso, resolvi acompanhar duas colegas italianas em lugares por onde já estive – Colina de Fourviére e Vieux Lyon. Poder conversar, por em ação meu francês ainda precário, comentar sobre os lugares, é também uma ótima experiência. Mas sempre se descobre coisas novas...
Por exemplo, dessa vez, estava aberto o museu de arte sacra e então pudemos conhecê-lo. Em termos de arte sacra, achei o museu bem fraquinho (comparando com os nossos), mas ele tem uma parte muito interessante que são as representações de Nossa Senhora – Maria, muita rica, com peças desde 1200. Algumas lindas, de muita delicadeza. O culto a Nossa Senhora nessa cidade é fortíssimo e atribui-se à ela proteções importantes à cidade, como a erradicação da peste (lá pelos 1600), comemorada todo ano, desde então, na festa das luzes, dia 8 de dezembro, que dizem ser maravilhosa. A outra proteção, foi contra a invasão prussiana, lá pelos 1800 e qualquer coisa. Por isso a igreja majestosa e rica foi construída e ao seu lado uma grande torre, com uma Nossa Senhora dourada no topo, abençoando a cidade, tudo como promessa. Agora, o mais curioso, é que na colina ao lado – Croix Rousse, que era o bairro dos Canuts, os operários da seda, a história forte que se tem, é a das bruxas, das bruxarias. História pouco contada, pouco referenciada, mas muito presente, principalmente nas lojas. Vê-se aqui bruxas de todas as espécies para enfeites, marionetes, brinquedos, algumas lindas! Aliás, essas duas colinas já se opuseram de muitas formas, em guerra mesmo, há mais de 200 anos, e até hoje as oposições aparecem nas descrições: “uma colina trabalhava a outra rezava, uma colina é dos ricos, a outra dos operários”. Essa forte questão da bruxaria e do culto à Nossa Senhora me fez lembrar o livro “O feminino e o sagrado” e acho que ele está muito presente aqui.
De lá descemos caminhando pelo parque das hortências e começo a me encantar e a conhecer as cores do outono. São lindas! O parque, que algumas semanas atrás era todo verde, já não é mais e o chão já fica inteiramente coberto de folhas.
Depois as vielas e chegamos à praça onde fica a Catedral de St-Jean, e uma boa surpresa, pois hoje tinha nela a apresentação de uma banda. Ali ficamos um bom tempo e depois fomos conhecer novos Traboules (as tais passagens cobertas entre prédios e ruas). Nossa, entrei em algumas fantásticas! A gente vai entrando por elas e na história e o clima é inteiramente misterioso. O que deveria ser isso há 400 anos atrás? Nesse entra e sai por ruas e traboules, deixamos passar a tarde.

10/10/04 – A vida operária
Hoje fui sozinha mesmo. O povo aqui acha que só podem sair uma vez por semana; o resto é estudo. Eu que sempre tentei conjugar as coisas, acho que já basta eu estudar muito durante a semana. E já acho que estou com uma vida muito santa aqui!
Achei que estava conhecendo muito o lado dos ricos e resolvi conhecer a parte turística do lado operário. Comecei pelo que chamam Museu Aberto Tonny Garnier. É um bairro, operário (nada comparável com os nossos) que foi projetado e revitalizado por esse arquiteto. São vários prédios, como um grande conjunto habitacional, feito na década de 20. Têm seu charme próprio. São prédios de no máximo 6 andares, com varandas, áreas externas de convivência com muito verde, mas o que ele tem de mais interessantes é que, um lado do prédio, que é sem janelas, tem pinturas grandes, enormes, algumas com ilusão de profundidade, outras não. E as pinturas são as mesmas, sempre preservadas. Já tivemos coisas dessa tradição aí em Belo Horizonte, como aquele prédio da Afonso Pena com Contorno, ou alguns grandes murais em outros edifícios. Aqui, é um conjunto de 25 murais, muito bem conservados e interessantes.
De lá fui para a colina dos Canuts – Croix Rousse e andei muito por suas ruas. É uma delícia. São prédios muito antigos e menos arrumados pra visão do turista. Tem casas antigas, lindas na arquitetura! Mas o que mais gostei foram os ateliers de seda. Ah, meu Deus, uma perdição! Cada coisa de babar. Tem dois que entrei, que são como um verdadeiro museu e os lenços, écharpes e gravatas são maravilhosos! Não dá nem pra ficar tentada porque o preço... é só pra admirar mesmo!
A principal praça do bairro estava invadida por um parque infantil e de novo os lindos carrocéis. Nessa praça, os restaurantes serviam grandes bandejas com vários tipos de ostras e caramujos (será que lá no meio tinha o tão famoso scargot? Aqui é a região mais famosa de sua cozinha) e juro que fiquei tentada. Mas vocês já devem ter percebido que estou passeando menos pelos sabores gastronômicos, é que resolvi ficar um pouco mais econômica até receber minha bolsa, mas voltarei em breve. Me aguardem!

3.10.04

Roteiro de 03/10 - Parc de la Tête d'or

Hoje o passeio parecia mesmo uma excursão. Éramos um grupo de estrangeiros muito interessante: duas brasileiras, dois italianos, três russos, uma espanhola, uma alemã e um americano. Mistura de línguas, de sonoridades, tendo o francês como referência comum, mas usando todas as possibilidades lingüísticas para nos comunicarmos.
O programa era conhecermos o parque e lá fomos nós.
Ah! Os parques franceses! Pra variar, enormes! Lindo em seu esplendor verde. Gramados a perder de vista, com nichos de belas árvores para fazerem sombra. Como estava um belo dia, quente, um mundo de gente pra aproveitar o sol!
Uma coisa que me encanta aqui é a quantidade de carrossel, daqueles antigos, com luzes coloridas. Quando passei perto de um deles, enquanto girava, tocava Frére Jacques (soleil matiné, din, din don). De novo um passeio pela memória de infância, delicioso. Próximo do carrossel, um palco todo preparado para se iniciar um teatro de marionetes (Guignol, o principal personagem aqui) e um mundo de crianças.
Logo à frente o zoológico e vamos caminhando tranqüilos, cheios de memórias.
Cheio de belos caminhos chegamos a dois lugares maravilhosos: um belo e grande lago e à sua frente um jardim de rosas, em canteiros e combinações que os franceses tão bem sabem fazer. É o final da primavera que permanece, enchendo o parque de cores.
Nessa caminhada, duas delícias: a primeira é que, ao contar ao italiano que eu era de Minas Gerais, ele com seu sotaque bem típico, me pergunta: a terra do sertão? Pois não é que ele é um leitor e admirador de Guimarães Rosa! Ele falando de sua emoção ao ler Grande Sertão, tentando aprender a dizer Riobaldo e Diadorim... juro que me emocionei viajando em pensamento de volta pra minha terra. Único livro que trouxe comigo foi Primeiras Estórias que já li e relí muitas vezes, mas que sabia ser um bom companheiro, aqui nessa travessia “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro!”
A outra delícia: esse mesmo italiano e a espanhola começaram a comentar sobre a música brasileira e tentaram cantar alguma coisa. Daí pra frente, eu e a outra brasileira cantávamos com gosto músicas inteiras, atendendo a pedidos. Já pensaram o que foi isso?
Como é bom sentir-se reconhecido em sua própria cultura e como isso adquire um forte sentido de identidade quando se está longe.
O tempo passou sem pressa.
“Amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui...”
“Cidades que eu nunca vi, são casas de braços a me agasalhar...”
Até semana que vem.